Mão na roda pé na estrada
   Hanói Hanói

 

 

Zzzzuuuuuummm…..o vento da motoca 50cc arrepia os pelos do braço, o barulho quase ensurdece...Beeeeeee, um ônibus esmaga a multidão pro canto da rua. É preciso caminhar com os cotovelos abertos, angulados, para propulsionar meu superveículo. E em Hanói fazer isso é arriscar ver meus preciosíssimos bracinhos decepados.

Passam por segundo 20 mil motos, vespas, mobiletes, rickshaws na rua do hotel Hanoi Star, uma biboca pulguenta, empresa familiar típica do local, de staff simpático mas não exatamente veloz de raciocínio. O buzinaco é non-stop, a fumaça tem cheiro de moto, homens, mulheres e bebês, ninjas vietcongues de rostos cobertos por lenços multicoloridos e oculos escuros, se equilibram sobre elas, o pulso direito do acelerador retorcido, a todo gás. O pedestre é um alvo e a faixa de pedestres é piada. Capacete não há – diz a lenda que quem usar capacete na maluca capital vietnamita é multado. Hanói tem pressa e vive sobre rodas. Meu par de rodas é só mais um na multidão de lata.

 

Os que caminham sobre sandálias suadas neste calor úmido de 35 graus destoam, mas quem, como eu, desliza sobre rodas avança a passos largos, parte integrante desse manicômio, uma só nação todos um só coração.

A cada manhã, respiro fundo, e me jogo nas ruas lotadas. Estranho conforto e perigo constante, adrenalina bombando na jugular. Atravessar a rua para comprar agua ou parar pra tirar uma foto de velhinhas equilibrando frutas pode ser uma decisão fatal, um último desejo antes do derradeiro beijo no asfalto.

Balela minha! Mentiroso pacas que sou, nem aqui me misturo na multidão. Todos me olham, acompanham o meu rodar, homens e mulheres, criancinhas e cães, quem diabos será este OVNI rolante ocidental?

Em toda parte, fotos e cartazes do herói Ho Chi Minh, que chutou os americanos pra felicidade geral da nação. Mas a Guerra do Vietnã acabou, faz tempo, e os vietnamitas são simpáticos, sorridentes, solícitos em me ajudar nas infinitas guias das calçadas e escadinhas. Recebem a todos com simplicidade única, mesmo os turistas americanos, que aqui se envergonham do passado e presente belicista da terra da “democracia e liberdade”.

Estranho só é perceber que, num país em que centenas de milhares ficaram incapacitados pela guerra, não se vê uma única alma cadeirante nas ruas. Sinto-me um ET, a mesma sensação que tive na Bósnia no ano passado, outro país de estropiados, onde o acesso nas ruas é ainda pior. Onde se escondem os feridos de guerra? Têm vergonha ou são superprotegidos dentro de casa por familiares bem intencionados? Serão já velhos demais para uma vida ativa, 30 anos após o fim da guerra? Por quê não se misturam às motos, bikes e buzinas, delirante multidão de cadeirantes desmembrados, desdentados, feios mas cheios de energia, apressados para chegar ao seu destino, atropelando os transeuntes?

É uma loucura estranhamente organizada isso aqui. Não vi ninguém se espatifando ao chocar a moto contra um poste, nem passando por cima das pessoas. Pra quem anda, um passeio a pé é uma deliciosa insanidade. Prum cadeirante, é uma batalha, a minha própria Guerra do Vietnã. E, preciso dizer, adrenalina estranha essa de guerrear nas vielas de Hanói Hanói.

Veja video em http://www.youtube.com/watch?v=Jd3B0cxCWM8

 

 

 

 

  

 

 



Escrito por Staroba às 08h09
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