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Mão na roda pé na estrada |
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Salsichas saltitantes
Após quase 3 semanas na Austrália, finalmente vi pela primeira vez um canguru na minha frente ontem, aqui em Port Douglas. Ou pelo menos o que restou dele...

Dizem que a carne é bem magra, com pouca gordura e bastante saborosa. Selvagem esse povo daqui: não bastasse atropelarem às pencas os cangurus - que ficam estirados mortos como cães vira-latas na beira das estradas - metem bala em milhares de outros...
"Hey, I ate old skippie", brincou outro dia o dono da minha pousada, ironizando a nova onda da gastronomia local. Outro australiano que conheci, um almofadinha simpático que vive com a mulher grávida num bairro nobre de Sydney e veio de férias a Port Douglas, disse-me na maior naturalidade: "Nunca provei. Mas acho bom que estejam comendo os cangurus. Tem canguru demais por aí, eles são uma praga."
Canguru aqui, virou até salsicha. Um alerta: cuidado com hot dogs d barraquinha de rua na Austrália, dizem que a salsicha sai pulando após a primeira mordida.

Escrito por Staroba às 08h38
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Cara a cara com Napoleão Bonaparte

Ontem eu vi Napoleão Bonaparte. Ele é mulato, quase negro. Um beiço gigante, olhar gelado e calmo. Flutuava tranquilo em sua nova encarnação: peixe-napoleão! Ousei tocar ostras que escancaram a boca, exibindo gargantas de tentáculos roxos e bolinhas amarelas. Segurei um monstro pré-histórico, de pele escorregosa de espinhos. Ao lado, uma escrota criatura cuspia viscosidades em forma de spaghetti.
Estou na Austrália e, juro a você, recusei convites de fumar opiácios nas montanhas com os aborígenes. Passei longe dos cogumelos selvagens do Outback. A droga mais pesada que consumi foi uma cerveja da Tasmânia – cujo slogan poderia ser "Tasmanian beer, brings out the Tasmanian Devil inside of you".
A viagem psicodélica foi a 20 metros de profundidade, 1h30 de barco da costa de Port Douglas, numa região da Grande Barreira de Corais chamada Opal Reef. Foram 3 mergulhos e umas 2 horas de scuba diving que me transportaram a outra dimensão. Um mundo subaquático em que, como meu novo amigo Napoleão, posso flutuar e nadar e mandar pro espaço os perrengues da paraplegia.

Encontrei Napoleão no final do último mergulho, quando já subíamos segurando na corda de volta ao barco. Ele nadava em círculos, chegando bem pertinho. Veio acompanhado do fiel escudeiro, um pequeno e preguiçoso peixinho-parasita, agarrado em suas barbatanas, à espreita para abocanhar migalhas remanescentes das presas de Napoleão.
Bati continência, despedindo-me do general em extinção das águas claras do Pacífico. Subi ao barco, tirei o wetsuit, voltei à minha cadeira cativa – como sempre, ajudado pelos outros mergulhadores. Segurei firme pra não capotar com o chacoalhar das ondas. Sequei-me no sol. Voltei a terra firme, sonhando virar Napoleão e viver pra sempre sob as águas.

Escrito por Staroba às 04h22
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Uma arvore em Cairns
Uma árvore enorne. Cheia de troncos e galhos e raízes. Irresistível a tentação de se infiltrar, macaquear rumo ao topo e, de lá, observar o mar azul do nordeste australiano, a gigantesca casa da Grande Barreira de Corais.
Talvez eu nem a tivesse visto, no calçadão da praia de Cairns. Olhei-a papagaiando a multidão mezzo-japonesa-mezzo-red-necks. Uma roda de curiosos, com câmeras e lentes telescópicas, mirando o topo da árvore e cochichando num zumzumzum. Aproveitei o raro momento de aglomeração para puxar papo com os desconhecidos mais estranhos da roda, cinco adolescentes de traços índigenas. Morria de curiosadade de finalmente ouvir em algum canto o sotaque do inglês aborígene.
--"There´s a little girl up there on the tree', balbuciou. 
Esfreguei os olhos e foquei no meio da folhagem e lá estava, pezinhos descalços, uma perninha gorducha pra cada lado de um galho. Ela não resistira a tamanha tentação. Subiu, leve e rápida, ao topo do grandioso jacarandá australiano. E lá ficou. Era uma daquelas árvores de uma mão só: uma pista expressa pra subir, mas sem caminho de volta rumo ao chão. Ou ficava ali para sempre fotossintetizando, ou desabava em queda livre.
Desesperado, o pai conversava com ela. Tentava acalmá-la enquanto os bombeiros não vinham. A multidão crescia: umas 100 pessoas segundo a polícia local, pelo menos 500 observadores de acordo com os organizadores. O zumzum se avolumou em hummsss e oooooohhhhs e mais um par de interjeiïções de perplexidade que só os japoneses conseguem pronunciar.
Uns quatro ou cinco oh my gods depois, chegaram os heróis. O bombeiro levou uns 5 minutos para trepar até onde ela estava. Difícil imaginar como ela havia chegado até ali. Amarrou-a em seu corpo e desceram, fazendo rappel numa corda, como nos filmes da SWAT. Aplausos. Um abraço aliviado do pai. Uma multidão se desfaz. Tudo volta à sua tediosa normalidade.
Escrito por Staroba às 07h25
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